A Inegualável – Mario de Sá-Carneiro

 

A Inegualável

Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de setim…
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas…

E tão febril e delicada
Que não pudesse dar um passo -
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cor no regaço…

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas…

Ah! que as tuas nostalgias fossem guisos de prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata…

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos, de seda…

- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim…

Lisboa 1915 – fevereiro 16.

Mário de Sá-Carneiro
Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2001

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